quinta-feira, 15 de maio de 2014
Marcelina da Silva e seu mundo: Novos dados para uma historiografia do Candomblé.
Interessante artigo, onde é tratado a respeito de ex-escravos que foram percursores no culto aos Orixás no Brasil. A autora fez uma vasta pesquisa documental e contrastou com a memória oral dos descendentes de Marcelina, Obatossi, ancestral e sacerdotisa de Xangô. Iyá Nassô, a fundadora do Ilê Iyá Nassô Oká também é apresentada no texto, como liberta e de grande prestigio religioso e social. Uma surpresa para muitos que imaginam os negros vivendo a beira da marginalidade em todo o período imperial.
A autora, demonstra seriedade e uma pesquisa documental ao tecer as relações entre a família, entre seus seus bens e na comunidade qual faziam parte.
Importante a leitura de textos como esse, se dão a todos. O texto é rico em relatos das dinâmicas sociais e econômicas em Salvador do século XIX que, vão de desencontro à construções históricas enfadonhas.
Segue o Link.
MARCELINA DA SILVA E SEU MUNDO: NOVOS DADOS PARA UMA HISTORIOGRAFIA DO CANDOMBLÉ KETU
terça-feira, 24 de setembro de 2013
Reações cristãs para as conquistas muçulmanas (1º-3º Séculos DH; 7º-9º Séculos d.C)
Boa
noite.
De
acordo com os interesses desse blog, eu vou compartilhar um excelente artigo
que tive o prazer de encontrar disponível, no Academia.edu.
O
artigo foi escrito pelo o professor John Tolan, que de acordo com sua biografia
disponível no site, é Professor de História na
Universidade de Nantes e Diretor da “Maison des Sciences de l’Homme Ange Guépin”.
É atualmente
diretor do projeto fundado pelo “the European Research Council - RELMIN:
The legal status of religious minorities in the Euro-Mediterranean world
(5th-15th centuries) - (www.relmin.eu)”.
O professor atua na área de Medieval, com foco
nos estudos islâmicos que abarcam esse período.
Eu pessoalmente fiquei encantado com os títulos da
suas produções acadêmicas, certamente achei muita coisa pra ler por um tempo.
Achei super interessante também os seus livros publicados, mais
especificamente, o que leva o título de “Sons of Ishmael: Muslims through
European Eyes in the Middle Ages”. É justamente o tipo de trabalho que eu gosto
de ler, a construção do imaginário cristão a respeito dos “sarracenos”.
Nesse artigo que compartilho com vocês, o autor
faz uma série de referências a obras publicadas durante os séculos VII e IX,
que tratam dos “Ismaelitas” visto por autores cristãos. O autor divide, esses
discursos em quatro categorias:
1
Sarracenos
retratados como uma “praga” divina;
2
Sarracenos
como percussores do Anticristo;
3
Muçulmanos
como hereges com Muhammad como seu “HERESIARCH” – alguém percussor de uma
doutrina herética;
4
Cristianismo
defendido na linguagem da Teologia Islâmica.
Nessas
divisões, brilhantemente o autor faz referências a crônicas, tratados,
doutrinas que dissertaram sobre o Islã. Recomendo a leitura a todos
interessados no tema.
Leia aqui:
domingo, 22 de setembro de 2013
Dilúvio e o fogo: E suas menções na tradição Islâmica, Judaico-Cristã e pela astrologia de Berossos.
Thiago Almeida Ferreira
Em
Contra Apion, Josefo,
cita um historiador babilônico que havia escrito a respeito de uma inundação que
teria destruído toda espécie humana:
“Berossos, que
era dessa nação e que é tão conhecido e estimado por todos os literatos pelos
seus tratados de astronomia e das outras ciências dos caldeus, que ele escreveu
em grego, afirma, conforme as mais antigas histórias e ao que Moisés disse, a
destruição do gênero humano pelo dilúvio, com exceção de Noé, autor da nossa
raça, que por meio da arca salvou-se, aportando ao cume dos montes da Armênia” [1]
Josefo
usa dessa citação para legitimar a antiguidade da nação dos judeus. O Dilúvio durou
quarenta dias e quarenta noites, e destruiu tudo que tinha vida e estivesse
sobre a terra. Após o fim, Noé desembarcou junto com sua família e seria
responsável pelo repovoamento da terra.
Os relatos da construção da Arca por Noé, também são mencionados
no Alcorão, onde é mostrado que Noé recebeu a inspiração divina para chamar seu
povo a adorar a Deus. Os homens permanecerem incrédulos e duvidosos de Noé, que
os adverte que uma grande inundação seria causada por Deus, para castigá-los e
pediu que retornassem ao caminho de Deus. Ele foi ignorado, mas construiu sua
arca e embarcou com sua família e um casal de cada espécie.
Diferentemente da versão de Gênesis, um dos filhos de Noé resolve
não entrar na Arca construída por ele, e é castigado sendo afogado junto com
todos os outros que resistiram e caçoaram das palavras do Mensageiro.
Outro fato diferente da narrativa bíblica é um trecho da Sura 71,
do Alcorão, onde é mencionado o nome de três divindades (Suwa’, Yaguth e Nasr)
que eram cultuados na Arábia pré-islâmica. Essas divindades foram mencionadas
pelo povo de Medina, que recusava a seguir as revelações de Noé e foram
descritas pelo historiador Ibn Al-Kalbi,
que viveu em 737 – 819 d.C em seu livro Kitab Al-Asnam (O livro dos Ídolos).
O fogo no fim do
mundo de Berossos e Muhammad
Berossos foi um grande astrólogo que viveu
durante o período helenístico, sua obra Babylonika,
é citada por alguns autores antigos mostrando a credibilidade de seus
trabalhos. Sêneca cita uma passagem perdida da obra de Berossos, que trata a
respeito de uma possível destruição da terra durante alinhamento dos planetas
no signo de Câncer.
“Essas catástrofes
ocorrem com o movimento dos planetas. Com efeito, ele [Berossos] está tão certo
disso que assinalou a data para Conflagração e o Dilúvio. Para que as coisas
terrenas venham se queimar, ele defende que, quando todos os planetas que agora
mantêm uma órbita diferente vierem se encontrar no signo de Câncer, e todos tão
organizados num mesmo caminho numa linha reta que passe através das esferas de
todos eles. O Dilúvio ocorrerá quando o mesmo grupo de planetas se encontrarem
em Capricórnio.” [2]
De acordo com a tradição
islâmica, no dia do Juízo surgirão dois rios perante os homens, um rio de fogo e
um de água. De acordo com um Hadith narrado por sahih Muslim Hudhaifa, o Profeta Muhammad disse:
“Eu sou o maior conhecedor do que terá o Dajjal. Ele terá dois rios, um
parecerá ser água fresca, e o outro parecerá ser um fogo voraz. Se algum de
vocês for submetido a essa prova que se dirija ao que pensa que é fogo, que
feche seus olhos incline sua cabeça e beba dele, pois é água fresca.” [3]
É também mencionado no Alcorão:
“Aguarda, pois, o dia em que do céu descerá uma fumaça visível. Que
envolverá o povo: Será um doloroso castigo!”... “Sabei que a árvore de zacum, será
o alimento do pecador. com metal fundido que lhe ferverá nas entranhas. Como a
borbulhante água fervente. (E será dito aos guardiãos): Agarrai o pecador e
arrastai-o até ao centro da fogueira e Então, atormentai-o, derramando sobre a
sua cabeça água fervente.” [4]
O fogo também aparece, em outro hadith “O profeta disse: À hora não será
estabelecida até que o fogo surja na ilha de Hijaz” [5]
segunda a tradição, esse fogo levará todos os homens ao que hoje compreende ao Yêmen,
onde será um lugar de reunião.
As razoes
pelas quais o fogo e a água levará a humanidade ao fim dos tempos são
diferentes nas narrações corânicas e de Berossos. Mas vale ressaltar, o uso
desses dois elementos para construir uma profecia a respeito de destino final
do mundo.
“Nas suas múltiplas formas, derivações e transmissões, os mitos sobre o fogo são antes de tudo, mitos civilizatórios”. Uma vida longe dos ensinamentos de Allah, de acordo com escatologia islâmica, terá como conseqüência padecer sob o fogo do inferno. Assim, como o destino final dos que se mantiveram incrédulos nos tempos de Noé e foram afogados pela grande inundação causada pelo Dilúvio.
“Nas suas múltiplas formas, derivações e transmissões, os mitos sobre o fogo são antes de tudo, mitos civilizatórios”. Uma vida longe dos ensinamentos de Allah, de acordo com escatologia islâmica, terá como conseqüência padecer sob o fogo do inferno. Assim, como o destino final dos que se mantiveram incrédulos nos tempos de Noé e foram afogados pela grande inundação causada pelo Dilúvio.
[1] Josefo. Contra
Apion 1.19.
[2]Sêneca. Quaestiones
naturales. Cambridge, MA: Harvard University Press, 1971-1972. Cit. por C. SILVA, RODRIGO - O
Nome do Fogo: Relações entre a Ekpyrosis, Astrologia e Milenarismo no Mundo
Helenístico Romano. Dissertação (Mestrado em História) Instituto de Humanas,
Departamento de História, Universidade de Brasília, Brasília: 2009. Disponível em: <http://repositorio.unb.br/bitstream/10482/4790/1/Mestrado%20Rodrigo%20UnB%202009.pdf>
[3] Sahih Al- Bukhari Volume 9, Book 88.244
[4] O
Sagrado Alcorão. (Sura 44:10-11, 43-48)
[5] Sahih
Bukhari. Volume 9, Book 88.234
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