domingo, 22 de setembro de 2013

Dilúvio e o fogo: E suas menções na tradição Islâmica, Judaico-Cristã e pela astrologia de Berossos.


Thiago Almeida Ferreira





Em Contra Apion, Josefo, cita um historiador babilônico que havia escrito a respeito de uma inundação que teria destruído toda espécie humana:


“Berossos, que era dessa nação e que é tão conhecido e estimado por todos os literatos pelos seus tratados de astronomia e das outras ciências dos caldeus, que ele escreveu em grego, afirma, conforme as mais antigas histórias e ao que Moisés disse, a destruição do gênero humano pelo dilúvio, com exceção de Noé, autor da nossa raça, que por meio da arca salvou-se, aportando ao cume dos montes da Armênia” [1]

Josefo usa dessa citação para legitimar a antiguidade da nação dos judeus. O Dilúvio durou quarenta dias e quarenta noites, e destruiu tudo que tinha vida e estivesse sobre a terra. Após o fim, Noé desembarcou junto com sua família e seria responsável pelo repovoamento da terra.

Os relatos da construção da Arca por Noé, também são mencionados no Alcorão, onde é mostrado que Noé recebeu a inspiração divina para chamar seu povo a adorar a Deus. Os homens permanecerem incrédulos e duvidosos de Noé, que os adverte que uma grande inundação seria causada por Deus, para castigá-los e pediu que retornassem ao caminho de Deus. Ele foi ignorado, mas construiu sua arca e embarcou com sua família e um casal de cada espécie.

Diferentemente da versão de Gênesis, um dos filhos de Noé resolve não entrar na Arca construída por ele, e é castigado sendo afogado junto com todos os outros que resistiram e caçoaram das palavras do Mensageiro.

Outro fato diferente da narrativa bíblica é um trecho da Sura 71, do Alcorão, onde é mencionado o nome de três divindades (Suwa’, Yaguth e Nasr) que eram cultuados na Arábia pré-islâmica. Essas divindades foram mencionadas pelo povo de Medina, que recusava a seguir as revelações de Noé e foram descritas pelo historiador Ibn Al-Kalbi, que viveu em 737 – 819 d.C em seu livro Kitab Al-Asnam (O livro dos Ídolos).




O fogo no fim do mundo de Berossos e Muhammad



 Berossos foi um grande astrólogo que viveu durante o período helenístico, sua obra Babylonika, é citada por alguns autores antigos mostrando a credibilidade de seus trabalhos. Sêneca cita uma passagem perdida da obra de Berossos, que trata a respeito de uma possível destruição da terra durante alinhamento dos planetas no signo de Câncer. 

“Essas catástrofes ocorrem com o movimento dos planetas. Com efeito, ele [Berossos] está tão certo disso que assinalou a data para Conflagração e o Dilúvio. Para que as coisas terrenas venham se queimar, ele defende que, quando todos os planetas que agora mantêm uma órbita diferente vierem se encontrar no signo de Câncer, e todos tão organizados num mesmo caminho numa linha reta que passe através das esferas de todos eles. O Dilúvio ocorrerá quando o mesmo grupo de planetas se encontrarem em Capricórnio.” [2]

De acordo com a tradição islâmica, no dia do Juízo surgirão dois rios perante os homens, um rio de fogo e um de água. De acordo com um Hadith narrado por sahih Muslim Hudhaifa, o Profeta Muhammad disse: 

“Eu sou o maior conhecedor do que terá o Dajjal. Ele terá dois rios, um parecerá ser água fresca, e o outro parecerá ser um fogo voraz. Se algum de vocês for submetido a essa prova que se dirija ao que pensa que é fogo, que feche seus olhos incline sua cabeça e beba dele, pois é água fresca.” [3] 

 É também mencionado no Alcorão: 
  

“Aguarda, pois, o dia em que do céu descerá uma fumaça visível. Que envolverá o povo: Será um doloroso castigo!”... “Sabei que a árvore de zacum, será o alimento do pecador. com metal fundido que lhe ferverá nas entranhas. Como a borbulhante água fervente. (E será dito aos guardiãos): Agarrai o pecador e arrastai-o até ao centro da fogueira e Então, atormentai-o, derramando sobre a sua cabeça água fervente.” [4]
 

O fogo também aparece, em outro hadith “O profeta disse: À hora não será estabelecida até que o fogo surja na ilha de Hijaz” [5] segunda a tradição, esse fogo levará todos os homens ao que hoje compreende ao Yêmen, onde será um lugar de reunião.
 

As razoes pelas quais o fogo e a água levará a humanidade ao fim dos tempos são diferentes nas narrações corânicas e de Berossos. Mas vale ressaltar, o uso desses dois elementos para construir uma profecia a respeito de destino final do mundo. 
 
   “Nas suas múltiplas formas, derivações e transmissões, os mitos sobre o fogo são antes de tudo, mitos civilizatórios”. Uma vida longe dos ensinamentos de Allah, de acordo com escatologia islâmica, terá como conseqüência padecer sob o fogo do inferno. Assim, como o destino final dos que se mantiveram incrédulos nos tempos de Noé e foram afogados pela grande inundação causada pelo Dilúvio.









[1] Josefo. Contra Apion 1.19.
[2]Sêneca. Quaestiones naturales. Cambridge, MA: Harvard University Press, 1971-1972. Cit. por C. SILVA, RODRIGO - O Nome do Fogo: Relações entre a Ekpyrosis, Astrologia e Milenarismo no Mundo Helenístico Romano. Dissertação (Mestrado em História) Instituto de Humanas, Departamento de História, Universidade de Brasília, Brasília: 2009. Disponível em: <http://repositorio.unb.br/bitstream/10482/4790/1/Mestrado%20Rodrigo%20UnB%202009.pdf>
[3]  Sahih Al- Bukhari Volume 9, Book 88.244
[4] O Sagrado Alcorão. (Sura 44:10-11, 43-48)
[5]  Sahih Bukhari. Volume 9, Book 88.234

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