terça-feira, 24 de setembro de 2013

Reações cristãs para as conquistas muçulmanas (1º-3º Séculos DH; 7º-9º Séculos d.C)



Boa noite.

De acordo com os interesses desse blog, eu vou compartilhar um excelente artigo que tive o prazer de encontrar disponível, no Academia.edu.
O artigo foi escrito pelo o professor John Tolan, que de acordo com sua biografia disponível no site, é Professor de História na Universidade de Nantes e Diretor da “Maison des Sciences de l’Homme Ange Guépin”. É atualmente diretor do projeto fundado pelo “the European Research Council - RELMIN: The legal status of religious minorities in the Euro-Mediterranean world (5th-15th centuries) - (www.relmin.eu)”.
O professor atua na área de Medieval, com foco nos estudos islâmicos que abarcam  esse período.
Eu pessoalmente fiquei encantado com os títulos da suas produções acadêmicas, certamente achei muita coisa pra ler por um tempo. Achei super interessante também os seus livros publicados, mais especificamente, o que leva o título de “Sons of Ishmael: Muslims through European Eyes in the Middle Ages”. É justamente o tipo de trabalho que eu gosto de ler, a construção do imaginário cristão a respeito dos “sarracenos”.
Nesse artigo que compartilho com vocês, o autor faz uma série de referências a obras publicadas durante os séculos VII e IX, que tratam dos “Ismaelitas” visto por autores cristãos. O autor divide, esses discursos em quatro categorias:

1                   Sarracenos retratados como uma “praga” divina;
2                   Sarracenos como percussores do Anticristo;
3                   Muçulmanos como hereges com Muhammad como seu “HERESIARCH” – alguém percussor de uma doutrina herética;
4                   Cristianismo defendido na linguagem da Teologia Islâmica.

 Nessas divisões, brilhantemente o autor faz referências a crônicas, tratados, doutrinas que dissertaram sobre o Islã. Recomendo a leitura a todos interessados no tema.

Leia aqui:


domingo, 22 de setembro de 2013

Dilúvio e o fogo: E suas menções na tradição Islâmica, Judaico-Cristã e pela astrologia de Berossos.


Thiago Almeida Ferreira





Em Contra Apion, Josefo, cita um historiador babilônico que havia escrito a respeito de uma inundação que teria destruído toda espécie humana:


“Berossos, que era dessa nação e que é tão conhecido e estimado por todos os literatos pelos seus tratados de astronomia e das outras ciências dos caldeus, que ele escreveu em grego, afirma, conforme as mais antigas histórias e ao que Moisés disse, a destruição do gênero humano pelo dilúvio, com exceção de Noé, autor da nossa raça, que por meio da arca salvou-se, aportando ao cume dos montes da Armênia” [1]

Josefo usa dessa citação para legitimar a antiguidade da nação dos judeus. O Dilúvio durou quarenta dias e quarenta noites, e destruiu tudo que tinha vida e estivesse sobre a terra. Após o fim, Noé desembarcou junto com sua família e seria responsável pelo repovoamento da terra.

Os relatos da construção da Arca por Noé, também são mencionados no Alcorão, onde é mostrado que Noé recebeu a inspiração divina para chamar seu povo a adorar a Deus. Os homens permanecerem incrédulos e duvidosos de Noé, que os adverte que uma grande inundação seria causada por Deus, para castigá-los e pediu que retornassem ao caminho de Deus. Ele foi ignorado, mas construiu sua arca e embarcou com sua família e um casal de cada espécie.

Diferentemente da versão de Gênesis, um dos filhos de Noé resolve não entrar na Arca construída por ele, e é castigado sendo afogado junto com todos os outros que resistiram e caçoaram das palavras do Mensageiro.

Outro fato diferente da narrativa bíblica é um trecho da Sura 71, do Alcorão, onde é mencionado o nome de três divindades (Suwa’, Yaguth e Nasr) que eram cultuados na Arábia pré-islâmica. Essas divindades foram mencionadas pelo povo de Medina, que recusava a seguir as revelações de Noé e foram descritas pelo historiador Ibn Al-Kalbi, que viveu em 737 – 819 d.C em seu livro Kitab Al-Asnam (O livro dos Ídolos).




O fogo no fim do mundo de Berossos e Muhammad



 Berossos foi um grande astrólogo que viveu durante o período helenístico, sua obra Babylonika, é citada por alguns autores antigos mostrando a credibilidade de seus trabalhos. Sêneca cita uma passagem perdida da obra de Berossos, que trata a respeito de uma possível destruição da terra durante alinhamento dos planetas no signo de Câncer. 

“Essas catástrofes ocorrem com o movimento dos planetas. Com efeito, ele [Berossos] está tão certo disso que assinalou a data para Conflagração e o Dilúvio. Para que as coisas terrenas venham se queimar, ele defende que, quando todos os planetas que agora mantêm uma órbita diferente vierem se encontrar no signo de Câncer, e todos tão organizados num mesmo caminho numa linha reta que passe através das esferas de todos eles. O Dilúvio ocorrerá quando o mesmo grupo de planetas se encontrarem em Capricórnio.” [2]

De acordo com a tradição islâmica, no dia do Juízo surgirão dois rios perante os homens, um rio de fogo e um de água. De acordo com um Hadith narrado por sahih Muslim Hudhaifa, o Profeta Muhammad disse: 

“Eu sou o maior conhecedor do que terá o Dajjal. Ele terá dois rios, um parecerá ser água fresca, e o outro parecerá ser um fogo voraz. Se algum de vocês for submetido a essa prova que se dirija ao que pensa que é fogo, que feche seus olhos incline sua cabeça e beba dele, pois é água fresca.” [3] 

 É também mencionado no Alcorão: 
  

“Aguarda, pois, o dia em que do céu descerá uma fumaça visível. Que envolverá o povo: Será um doloroso castigo!”... “Sabei que a árvore de zacum, será o alimento do pecador. com metal fundido que lhe ferverá nas entranhas. Como a borbulhante água fervente. (E será dito aos guardiãos): Agarrai o pecador e arrastai-o até ao centro da fogueira e Então, atormentai-o, derramando sobre a sua cabeça água fervente.” [4]
 

O fogo também aparece, em outro hadith “O profeta disse: À hora não será estabelecida até que o fogo surja na ilha de Hijaz” [5] segunda a tradição, esse fogo levará todos os homens ao que hoje compreende ao Yêmen, onde será um lugar de reunião.
 

As razoes pelas quais o fogo e a água levará a humanidade ao fim dos tempos são diferentes nas narrações corânicas e de Berossos. Mas vale ressaltar, o uso desses dois elementos para construir uma profecia a respeito de destino final do mundo. 
 
   “Nas suas múltiplas formas, derivações e transmissões, os mitos sobre o fogo são antes de tudo, mitos civilizatórios”. Uma vida longe dos ensinamentos de Allah, de acordo com escatologia islâmica, terá como conseqüência padecer sob o fogo do inferno. Assim, como o destino final dos que se mantiveram incrédulos nos tempos de Noé e foram afogados pela grande inundação causada pelo Dilúvio.









[1] Josefo. Contra Apion 1.19.
[2]Sêneca. Quaestiones naturales. Cambridge, MA: Harvard University Press, 1971-1972. Cit. por C. SILVA, RODRIGO - O Nome do Fogo: Relações entre a Ekpyrosis, Astrologia e Milenarismo no Mundo Helenístico Romano. Dissertação (Mestrado em História) Instituto de Humanas, Departamento de História, Universidade de Brasília, Brasília: 2009. Disponível em: <http://repositorio.unb.br/bitstream/10482/4790/1/Mestrado%20Rodrigo%20UnB%202009.pdf>
[3]  Sahih Al- Bukhari Volume 9, Book 88.244
[4] O Sagrado Alcorão. (Sura 44:10-11, 43-48)
[5]  Sahih Bukhari. Volume 9, Book 88.234