Resenha:
CARVALHO, José
Murilo de. Formação das Almas: O
imaginário da República no Brasil. São Paulo: Companhia das Letras. 20º Edição,
2012.
Em formação das Almas, o autor José Murilo de Carvalho, propõe-se a
analisar o uso da simbologia, para a construção de um imaginário a respeito da
república. O autor apresenta em sua introdução, as três correntes teóricas que
se formaram como inspiração do pensamento republicano: O liberalismo à
americana, o jacobinismo à francesa e o positivismo. Esses modelos eram usados
por determinados grupos, para a elaboração e efetivação do pensamento
republicano no país com intento de atingir a população a respeito seus
benefícios para o inicio de um novo modelo político a ser concretizado.
Formar as almas, através de heróis, hinos, mitos e bandeiras que se
expandiram no país, ao final do século XIX, na luta pela conquista do
imaginário popular republicano: “Símbolos e mitos podem, por seu caráter
difuso... tornar-se elementos poderosos de projeção de interesses, aspirações e
medos coletivos”. Apesar dessa movimentação entre os grupos “formadores da
república”, o autor parece concluir que, assim como a “República não foi”,
tampouco, foram bem sucedidos os construtores da nova forma de governo, ao
tentarem construir um imaginário próprio. Os republicanos brasileiros, utilizaram
do vasto material propagandista do modelo francês, pela facilidade de acesso a disposição
para ser usado como inspiração.
Ainda na introdução, o autor expõe a estrutura e sua obra e delineia
a sua abordagem central, em analisar as ferramentas usadas pelos republicanos
para implementação do regime “entre os vários símbolos, alegorias e mitos
utilizados, foram selecionados alguns que pareceram mais evidentes e mais
capazes de jogar luz sobre o fenômeno da república”. Expõe as características
que pretende analisar, “cada um será objeto de um capitulo a parte”. A 21ª
reedição da obra em análise foi produzida em 168 pgs e em seis capítulos,
conclusão, notas, fontes e índice de ilustrações, publicada em 2012
No primeiro capitulo, chamado de Utopias republicanas, José Murilo
de Carvalho, trata de explicar os fundamentos teóricos que influenciaram os
movimentos republicanos, traça as delimitações e anseios de grupos diversos que
estavam de frente a um novo modelo de governo inspirados pela luz de idéias
exportadas do estrangeiro e pela sua reformulação para a aplicação de cada uma
na realidade brasileira.
O capitulo é dividido em alguns títulos: As duas liberdades; A
herança imperial; A opção republicana; e A cidadania e a estadania,
O Autor trata da referência aos modelos franceses e americanos que
serviram de grande referência aos brasileiros engajados na construção da
republica. Esses modelos que foram exportados dos Estados Unidos e da França
também sofriam de ambigüidade na sua estruturação “o conceito de republica era
ambíguo para os founding fathers”
apesar de concordarem no aspecto principal do pensamento republicano
“predominância do interesse individual, e da busca da felicidade pessoal”.
Dessa forma o autor diferente as diversas repúblicas comparando com
os exemplos de Esparta, o utilitarismo de Hume, e com maior destaque para o
modelo francês que obteve muita influência no país. Apesar da citação desse
modelo francês, o autor faz uma ressalva a respeito da descrição desse modelo ”Dizer
modelo francês é incorreto: havia mais que um modelo francês, em decorrência
das vicissitudes por que passara a república naquele país", isso para
explicar as divergências em como implantar uma república no Brasil: "Havia
divergências quanto à maneira de tornar a República um governo", expondo
em seguida as contradições dentro do positivismo, que teve função determinante
para a formulação do imaginário na Republica para os brasileiros: "[...]
do próprio positivismo, havia os ortodoxos do grupo de Laffitte, que não
aceitavam o parlamentarismo [...] O grupo de Littré aceitava o parlamentarismo
[...] ortodoxos e heterodoxos, todos se inspiravam politicamente no Appel aux conservateurs que Comte publicara em 1855", concluindo sobre
os modelos na idealização da república no Brasil, o autor afirma: "[...]
assim, pelo menos três modelos de república à disposição dos republicanos
brasileiros. Dois deles, o americano e o positivista, embora partindo de
premissas totalmente “distintas" Posteriormente
o autor realiza uma síntese rapidamente a respeito do apanhado da herança
imperial para a república e como essa herança iria dificultar a aceitação da
república pelas pessoas, assim, ele descreve como a república de fato
estabeleceu-se, ideologicamente fragmentada: "Substituir um governo e
construir uma nação, esta era a tarefa que os republicanos tinham de enfrentar”
e “Eles a enfrentaram de maneira diversificada de acordo com a visão que cada
grupo tinha da solução desejada", o autor cita anteriormente, a obra O
guarani, de José de Alencar que já buscava definir uma identidade nacional
“indicava uma primeira tentativa de esboçar o que seriam as bases de uma
comunidade nacional, com identidade própria”.
“O arsenal positivista” seria a melhor saída para uma efetivação da
república, pela condenação da monarquia, que era correspondia à fase
“teológica-militar” e que deveria ser superada pela fase “positivista, cuja
melhor encarnação era a república.” Consecutivamente esse aspecto fazia com que
vários grupos, dessem maior ênfase ao estado: “Até mesmo a transição
republicana deveria ser feita de maneira suave: os ortodoxos queriam que o
imperador tomasse a iniciativa de se proclamar ditador republicano”.
“Além de ter surgido em uma sociedade profundamente desigual e
hierarquizada, a República brasileira foi proclamada em um momento de intensa
especulação financeira" .
No segundo capítulo, o autor dá continuidade à instituição da
república, mas não só a sua organização, mas em sua proclamação, questionando-se
se houve "afinal, algum momento no dia 15 de novembro em que Deodoro tenha proclamado
a República?". O autor traça uma disputa de ideologias a respeito do dia
15 de novembro; uma disputa para traçar quem verdadeiramente merece o titulo de
proclamador da república.
O autor analisa os mitos criados em torno de Deodoro, Benjamin
Constant, Quintino Bocaiúva, Floriano Peixoto. E apresenta às versões
ideológicas da proclamação de Deodoro “para esse grupo, a proclamação foi um
ato extremamente militar” o autor critica esse grupo, afirmando este não ter
uma visão elaborada de republica e sim um anseio por posições de prestigio e
poder. No titulo dedicado a Benjamin Constant, que defendia uma república
sociocrática, não possui sua figura ligada ao “vingador do exército” ele é
visto como “professor, teórico, portador de uma visão da história” 40 e a ele
se deveria o fato dos 15 de novembro ter transformado em mudança de regime em
revolução, “a salvação da pátria”. Quintino Bocaiúva e sua república liberal,
valendo-se também da posterior retratação destes em monumentos e quadros para
ilustrar essa batalha ideológica, entre os homens da república, entre civil e
militar e as divergências dentro desses grupos. Muitas coisas estavam em jogo
para as definições dos papéis dos atores, dada, por exemplo, o que cada um
julgava ter sobre o novo regime e a própria natureza do regime: "O mito da
origem ficou inconcluso, como inconclusa ficara a República".
No terceiro capitulo, sem subtítulos, o autor esforça-se sobre a
dificuldade encontrada para se construir um herói para o novo regime. Segundo o
autor, herói que se preze deve de alguma maneira, ter a cara do povo que
representa; tem de responder a alguma necessidade ou aspiração do conjunto da
nação, refletir algum tipo de caráter ou de atitude que corresponda a um modelo
coletivamente valorizado.
No Brasil, ocorreu um grande esforço de transformação dos principais
atores dos 15 de novembro em “heróis do novo regime”. Deodoro era o candidato
mais óbvio ao papel de herói republicano, mas seu republicanismo era incerto;
Benjamin Constant apresentava um republicanismo inatacável, mas não era um
líder; candidato mais sério que Benjamin era Floriano Peixoto, que adquiriu
grande dimensão após os episódios das Revoltas da Armada e Federalista, tendo
inspirado o jacobinismo. Constava contra ele, entretanto, a divisão que criava
entre os militares (Exército contra marinha) e entre os civis (jacobinos e
liberais). O autor então discute em torno da figura mítica de Tiradentes, por
conta dessa dificuldade em criar um herói símbolo da nação: "A luta em
torno do mito de origem da República mostrou a dificuldade de construir um herói
para o novo regime", conclui que "o esforço de promoção desses
candidatos a heróis resultou em muito pouco", chegando assim em
Tiradentes: "[...] quem aos poucos se revelou capaz de atender às
exigências da mitificação foi Tiradentes", expõe depois sua trajetória
como herói da república, sua imagem feita e as controvérsias em sua pessoa que,
porém, não impediu que fosse considerado o herói da república posteriormente. O
autor expõe as fragilidades dos discursos criados a respeito de Tiradentes, sua
representação mitificada e outrora também cristianizada, sua assimilação ao
sufrágio vivido por Jesus Cristo, em prol de uma nação independente. "O
segredo da vitalidade do herói talvez esteja, afinal, nessa ambigüidade, em sua
resistência aos continuados esforços de esquartejamento de sua memória".
No quarto capitulo, cujo titulo é “República mulher: Entre Maria e
Marienne, o autor faz um paralelo entre a retratação da República na forma pelo
o uso da mulher na França, chamada de Marianne e no Brasil, onde é chamada de
Maria. O autor faz uma análise da simbologia contida na representação feminina
de Marienne e a o que levou a sua inspiração, com base em representações feitas
por artistas franceses do século XVIII, e depois traça como essa representação
república-mulher chegou ao Brasil: "O esforço inicial foi feito pelos
caricaturistas da imprensa periódica, a grande maioria simpática à
República", mas em seguida, ele ressalta que os "pintores
positivistas foram os únicos a levar a sério a tentativa de utilizar a figura
feminina como alegoria cívica", pois, como acontecido na França, a figura
feminina logo começou a ser usada para ridicularizar a república: “bem depressa
os caricaturistas passaram a usar a figura feminina para ridicularizar a
República [...] desapontamento refletido na conhecida frase 'Esta não é a
república dos meus sonhos' rapidamente invadiu o mundo dos caricaturistas, ao
mesmo tempo em que atingia os políticos da propaganda e os escritores",
segundo o autor, essa dificuldade em legitimar a mulher como representação da
república aconteceu porque a "mulher que os melhores pintores da época
representavam não tinha lugar no mundo da política, não tinha lugar fora de
casa, a não ser nos salões e nos teatros elegantes, ou nas butiques da Rua do
Ouvidor", e disserta em cima do fracasso da representação feminina,
afirmando que a alegoria feminina da república "falhava dos dois lados -
do significado, no qual a República se mostrava longe dos sonhos de seus
idealizadores, e do insignificante, no qual inexistia a mulher cívica, tanto na
realidade como em sua representação artística".
No quinto capítulo, "Bandeira e Hino: O Peso da Tradição"
trata a respeito da batalha em torno em estabelecer dois símbolos nacionais
importantes: a bandeira e o hino para a república, afirmando que, ao contrário
de outras batalhas ideológicas para definir símbolos da república, a bandeira e
o hino "tinham de ser estabelecidos por legislação, com data certa. Era
batalha decisiva", então, "a disputa em torno desses dois símbolos
tenha sido mais intensa, embora de menor duração". Inicialmente o autor
trata da bandeira, delineando os conflitos entre estabelecer uma bandeira com
características iguais à dos Estados Unidos da América, ou em ou em ajustar a
bandeira já utilizada no Império, que foi o que, de fato, aconteceu: "O
verde-amarelo presidira a quase um século de vida independente do país e fora
imortalizado nos versos candentes de um republica como Castro Alves. A bandeira
republicana era ainda o “auriverde pendão”, apesar da 'Marca Cometa'"
finaliza, fazendo referência a semelhança da bandeira com o logotipo de uma
empresa da época e depois, tratando-se do hino nacional, o autor afirma que
"significou uma vitória da tradição, pode-se mesmo dizer uma vitória
popular, talvez a única intervenção vitoriosa do povo na implantação do novo
regime", pois continuo a usar o hino do Império, desestabilizando as
tentativas da república em instaurar um hino com fortes influências na Marselhesa, que, aliás, era o hino dos
republicanos quando ainda não possuíam um hino, mesmo assim, os símbolos da
república, mesmo os oficiais, necessitavam de apoio popular, que, aliás, é o
que os legitima, e eram escassos, pois o autor destaca que os traços do Império
ainda fazia parte do cenário das cidades. O autor evidencia essa insatisfação
em referencia a um artigo escrito na
Revista Illustrada: "O articulista apelava ao governo para que se
esforçasse mais por despertar o entusiasmo nas almas, por meio desses poderosos
instrumentos de propaganda".
No sexto capítulo, "Os Positivistas e a Manipulação do
Imaginário", o autor exibe as ideologias que formaram o imaginário da
república, como se confrontaram e como elas serviram de apoio para manejar a
opinião pública em relação à própria república: "Suas armas foram à
palavra escrita e os símbolos cívicos”. Expondo em primeiro lugar a comtista na
república e depois dos ortodoxos, o autor perpassa a linha que trata
basicamente da manipulação da opinião pelos símbolos, ou como afirma o autor,
"convencê-los da verdade da doutrina, era condição indispensável ao êxito
final da tarefa que se empunhassem, referindo-se aos republicanos, comtistas ou
ortodoxos: “A presença de um positivista como Benjamim entre os proclamadores
da República fora um golpe de sorte, mas cairia no vazio se a propaganda não
levasse adiante a tarefa do convencimento”
Por fim, o autor conclui expondo a superficialidade do apoio cívico
à república, a falta de uma identidade republicana e a persistente emergência
de visões conflitantes que também ajudam a compreender o êxito da figura de
herói personificada em Tiradentes como pilar para legitimação do imaginário
republicano. O autor lida muito bem com o tema e faz a leitura do livro um
grande exercício, para entender as complexidades da formação dos bastidores da
República e sua formação do imaginário da república no Brasil, e principalmente
a manipulação dele, já que segundo o autor: "manipulação do imaginário
social é particularmente importante em momentos de mudança coletiva e
social".

