quarta-feira, 4 de junho de 2014

Resenha: Formação das Almas, autor José Murilo de Carvalho.

Resenha:

CARVALHO, José Murilo de. Formação das Almas: O imaginário da República no Brasil. São Paulo: Companhia das Letras. 20º Edição, 2012.

Em formação das Almas, o autor José Murilo de Carvalho, propõe-se a analisar o uso da simbologia, para a construção de um imaginário a respeito da república. O autor apresenta em sua introdução, as três correntes teóricas que se formaram como inspiração do pensamento republicano: O liberalismo à americana, o jacobinismo à francesa e o positivismo. Esses modelos eram usados por determinados grupos, para a elaboração e efetivação do pensamento republicano no país com intento de atingir a população a respeito seus benefícios para o inicio de um novo modelo político a ser concretizado.
Formar as almas, através de heróis, hinos, mitos e bandeiras que se expandiram no país, ao final do século XIX, na luta pela conquista do imaginário popular republicano: “Símbolos e mitos podem, por seu caráter difuso... tornar-se elementos poderosos de projeção de interesses, aspirações e medos coletivos”. Apesar dessa movimentação entre os grupos “formadores da república”, o autor parece concluir que, assim como a “República não foi”, tampouco, foram bem sucedidos os construtores da nova forma de governo, ao tentarem construir um imaginário próprio. Os republicanos brasileiros, utilizaram do vasto material propagandista do modelo francês, pela facilidade de acesso a disposição para ser usado como inspiração.
Ainda na introdução, o autor expõe a estrutura e sua obra e delineia a sua abordagem central, em analisar as ferramentas usadas pelos republicanos para implementação do regime “entre os vários símbolos, alegorias e mitos utilizados, foram selecionados alguns que pareceram mais evidentes e mais capazes de jogar luz sobre o fenômeno da república”. Expõe as características que pretende analisar, “cada um será objeto de um capitulo a parte”. A 21ª reedição da obra em análise foi produzida em 168 pgs e em seis capítulos, conclusão, notas, fontes e índice de ilustrações, publicada em 2012
No primeiro capitulo, chamado de Utopias republicanas, José Murilo de Carvalho, trata de explicar os fundamentos teóricos que influenciaram os movimentos republicanos, traça as delimitações e anseios de grupos diversos que estavam de frente a um novo modelo de governo inspirados pela luz de idéias exportadas do estrangeiro e pela sua reformulação para a aplicação de cada uma na realidade brasileira.
O capitulo é dividido em alguns títulos: As duas liberdades; A herança imperial; A opção republicana; e A cidadania e a estadania,
O Autor trata da referência aos modelos franceses e americanos que serviram de grande referência aos brasileiros engajados na construção da republica. Esses modelos que foram exportados dos Estados Unidos e da França também sofriam de ambigüidade na sua estruturação “o conceito de republica era ambíguo para os founding fathers” apesar de concordarem no aspecto principal do pensamento republicano “predominância do interesse individual, e da busca da felicidade pessoal”.
Dessa forma o autor diferente as diversas repúblicas comparando com os exemplos de Esparta, o utilitarismo de Hume, e com maior destaque para o modelo francês que obteve muita influência no país. Apesar da citação desse modelo francês, o autor faz uma ressalva a respeito da descrição desse modelo ”Dizer modelo francês é incorreto: havia mais que um modelo francês, em decorrência das vicissitudes por que passara a república naquele país", isso para explicar as divergências em como implantar uma república no Brasil: "Havia divergências quanto à maneira de tornar a República um governo", expondo em seguida as contradições dentro do positivismo, que teve função determinante para a formulação do imaginário na Republica para os brasileiros: "[...] do próprio positivismo, havia os ortodoxos do grupo de Laffitte, que não aceitavam o parlamentarismo [...] O grupo de Littré aceitava o parlamentarismo [...] ortodoxos e heterodoxos, todos se inspiravam politicamente no Appel aux conservateurs que Comte publicara em 1855", concluindo sobre os modelos na idealização da república no Brasil, o autor afirma: "[...] assim, pelo menos três modelos de república à disposição dos republicanos brasileiros. Dois deles, o americano e o positivista, embora partindo de premissas totalmente “distintas"  Posteriormente o autor realiza uma síntese rapidamente a respeito do apanhado da herança imperial para a república e como essa herança iria dificultar a aceitação da república pelas pessoas, assim, ele descreve como a república de fato estabeleceu-se, ideologicamente fragmentada: "Substituir um governo e construir uma nação, esta era a tarefa que os republicanos tinham de enfrentar” e “Eles a enfrentaram de maneira diversificada de acordo com a visão que cada grupo tinha da solução desejada", o autor cita anteriormente, a obra O guarani, de José de Alencar que já buscava definir uma identidade nacional “indicava uma primeira tentativa de esboçar o que seriam as bases de uma comunidade nacional, com identidade própria”.
“O arsenal positivista” seria a melhor saída para uma efetivação da república, pela condenação da monarquia, que era correspondia à fase “teológica-militar” e que deveria ser superada pela fase “positivista, cuja melhor encarnação era a república.” Consecutivamente esse aspecto fazia com que vários grupos, dessem maior ênfase ao estado: “Até mesmo a transição republicana deveria ser feita de maneira suave: os ortodoxos queriam que o imperador tomasse a iniciativa de se proclamar ditador republicano”.
“Além de ter surgido em uma sociedade profundamente desigual e hierarquizada, a República brasileira foi proclamada em um momento de intensa especulação financeira" .
No segundo capítulo, o autor dá continuidade à instituição da república, mas não só a sua organização, mas em sua proclamação, questionando-se se houve "afinal, algum momento no dia 15 de novembro em que Deodoro tenha proclamado a República?". O autor traça uma disputa de ideologias a respeito do dia 15 de novembro; uma disputa para traçar quem verdadeiramente merece o titulo de proclamador da república.
O autor analisa os mitos criados em torno de Deodoro, Benjamin Constant, Quintino Bocaiúva, Floriano Peixoto. E apresenta às versões ideológicas da proclamação de Deodoro “para esse grupo, a proclamação foi um ato extremamente militar” o autor critica esse grupo, afirmando este não ter uma visão elaborada de republica e sim um anseio por posições de prestigio e poder. No titulo dedicado a Benjamin Constant, que defendia uma república sociocrática, não possui sua figura ligada ao “vingador do exército” ele é visto como “professor, teórico, portador de uma visão da história” 40 e a ele se deveria o fato dos 15 de novembro ter transformado em mudança de regime em revolução, “a salvação da pátria”. Quintino Bocaiúva e sua república liberal, valendo-se também da posterior retratação destes em monumentos e quadros para ilustrar essa batalha ideológica, entre os homens da república, entre civil e militar e as divergências dentro desses grupos. Muitas coisas estavam em jogo para as definições dos papéis dos atores, dada, por exemplo, o que cada um julgava ter sobre o novo regime e a própria natureza do regime: "O mito da origem ficou inconcluso, como inconclusa ficara a República".
No terceiro capitulo, sem subtítulos, o autor esforça-se sobre a dificuldade encontrada para se construir um herói para o novo regime. Segundo o autor, herói que se preze deve de alguma maneira, ter a cara do povo que representa; tem de responder a alguma necessidade ou aspiração do conjunto da nação, refletir algum tipo de caráter ou de atitude que corresponda a um modelo coletivamente valorizado.
No Brasil, ocorreu um grande esforço de transformação dos principais atores dos 15 de novembro em “heróis do novo regime”. Deodoro era o candidato mais óbvio ao papel de herói republicano, mas seu republicanismo era incerto; Benjamin Constant apresentava um republicanismo inatacável, mas não era um líder; candidato mais sério que Benjamin era Floriano Peixoto, que adquiriu grande dimensão após os episódios das Revoltas da Armada e Federalista, tendo inspirado o jacobinismo. Constava contra ele, entretanto, a divisão que criava entre os militares (Exército contra marinha) e entre os civis (jacobinos e liberais). O autor então discute em torno da figura mítica de Tiradentes, por conta dessa dificuldade em criar um herói símbolo da nação: "A luta em torno do mito de origem da República mostrou a dificuldade de construir um herói para o novo regime", conclui que "o esforço de promoção desses candidatos a heróis resultou em muito pouco", chegando assim em Tiradentes: "[...] quem aos poucos se revelou capaz de atender às exigências da mitificação foi Tiradentes", expõe depois sua trajetória como herói da república, sua imagem feita e as controvérsias em sua pessoa que, porém, não impediu que fosse considerado o herói da república posteriormente. O autor expõe as fragilidades dos discursos criados a respeito de Tiradentes, sua representação mitificada e outrora também cristianizada, sua assimilação ao sufrágio vivido por Jesus Cristo, em prol de uma nação independente. "O segredo da vitalidade do herói talvez esteja, afinal, nessa ambigüidade, em sua resistência aos continuados esforços de esquartejamento de sua memória".
No quarto capitulo, cujo titulo é “República mulher: Entre Maria e Marienne, o autor faz um paralelo entre a retratação da República na forma pelo o uso da mulher na França, chamada de Marianne e no Brasil, onde é chamada de Maria. O autor faz uma análise da simbologia contida na representação feminina de Marienne e a o que levou a sua inspiração, com base em representações feitas por artistas franceses do século XVIII, e depois traça como essa representação república-mulher chegou ao Brasil: "O esforço inicial foi feito pelos caricaturistas da imprensa periódica, a grande maioria simpática à República", mas em seguida, ele ressalta que os "pintores positivistas foram os únicos a levar a sério a tentativa de utilizar a figura feminina como alegoria cívica", pois, como acontecido na França, a figura feminina logo começou a ser usada para ridicularizar a república: “bem depressa os caricaturistas passaram a usar a figura feminina para ridicularizar a República [...] desapontamento refletido na conhecida frase 'Esta não é a república dos meus sonhos' rapidamente invadiu o mundo dos caricaturistas, ao mesmo tempo em que atingia os políticos da propaganda e os escritores", segundo o autor, essa dificuldade em legitimar a mulher como representação da república aconteceu porque a "mulher que os melhores pintores da época representavam não tinha lugar no mundo da política, não tinha lugar fora de casa, a não ser nos salões e nos teatros elegantes, ou nas butiques da Rua do Ouvidor", e disserta em cima do fracasso da representação feminina, afirmando que a alegoria feminina da república "falhava dos dois lados - do significado, no qual a República se mostrava longe dos sonhos de seus idealizadores, e do insignificante, no qual inexistia a mulher cívica, tanto na realidade como em sua representação artística".
No quinto capítulo, "Bandeira e Hino: O Peso da Tradição" trata a respeito da batalha em torno em estabelecer dois símbolos nacionais importantes: a bandeira e o hino para a república, afirmando que, ao contrário de outras batalhas ideológicas para definir símbolos da república, a bandeira e o hino "tinham de ser estabelecidos por legislação, com data certa. Era batalha decisiva", então, "a disputa em torno desses dois símbolos tenha sido mais intensa, embora de menor duração". Inicialmente o autor trata da bandeira, delineando os conflitos entre estabelecer uma bandeira com características iguais à dos Estados Unidos da América, ou em ou em ajustar a bandeira já utilizada no Império, que foi o que, de fato, aconteceu: "O verde-amarelo presidira a quase um século de vida independente do país e fora imortalizado nos versos candentes de um republica como Castro Alves. A bandeira republicana era ainda o “auriverde pendão”, apesar da 'Marca Cometa'" finaliza, fazendo referência a semelhança da bandeira com o logotipo de uma empresa da época e depois, tratando-se do hino nacional, o autor afirma que "significou uma vitória da tradição, pode-se mesmo dizer uma vitória popular, talvez a única intervenção vitoriosa do povo na implantação do novo regime", pois continuo a usar o hino do Império, desestabilizando as tentativas da república em instaurar um hino com fortes influências na Marselhesa, que, aliás, era o hino dos republicanos quando ainda não possuíam um hino, mesmo assim, os símbolos da república, mesmo os oficiais, necessitavam de apoio popular, que, aliás, é o que os legitima, e eram escassos, pois o autor destaca que os traços do Império ainda fazia parte do cenário das cidades. O autor evidencia essa insatisfação em referencia a um artigo escrito na Revista Illustrada: "O articulista apelava ao governo para que se esforçasse mais por despertar o entusiasmo nas almas, por meio desses poderosos instrumentos de propaganda".
No sexto capítulo, "Os Positivistas e a Manipulação do Imaginário", o autor exibe as ideologias que formaram o imaginário da república, como se confrontaram e como elas serviram de apoio para manejar a opinião pública em relação à própria república: "Suas armas foram à palavra escrita e os símbolos cívicos”. Expondo em primeiro lugar a comtista na república e depois dos ortodoxos, o autor perpassa a linha que trata basicamente da manipulação da opinião pelos símbolos, ou como afirma o autor, "convencê-los da verdade da doutrina, era condição indispensável ao êxito final da tarefa que se empunhassem, referindo-se aos republicanos, comtistas ou ortodoxos: “A presença de um positivista como Benjamim entre os proclamadores da República fora um golpe de sorte, mas cairia no vazio se a propaganda não levasse adiante a tarefa do convencimento”
Por fim, o autor conclui expondo a superficialidade do apoio cívico à república, a falta de uma identidade republicana e a persistente emergência de visões conflitantes que também ajudam a compreender o êxito da figura de herói personificada em Tiradentes como pilar para legitimação do imaginário republicano. O autor lida muito bem com o tema e faz a leitura do livro um grande exercício, para entender as complexidades da formação dos bastidores da República e sua formação do imaginário da república no Brasil, e principalmente a manipulação dele, já que segundo o autor: "manipulação do imaginário social é particularmente importante em momentos de mudança coletiva e social".


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